terça-feira, março 07, 2006

Lembranças sem sentido

Sempre que jogo Paciência lembro da sua mãe. Acho que nunca te contei, mas foi ela que me ensinou. Era fim de tarde, estávamos mexendo naquele computador velho no primeiro quarto. Ele ficava ali, perto da janela. Nessa época ela ainda economizava palavras para falar comigo, bem daquele jeito pouco simpático. Mesmo assim, me ensinou a jogar Paciência.

Outra noite sonhei com seu pai. Eu nem lembrava do rosto dele, faz tanto tempo... Ainda assim, sabia que era ele. Me olhava com ternura e parecia não aprovar as coisas que você fazia. Sua sala estava desarrumada, cheia de móveis velhos, aqueles de madeira escura. O sofá estava rasgado. Tinha uma manta para cobrir o tecido puído, mas estava meio suja. E ele lá, de pé, bem no meio da bagunça. Não gostava do que via, mas me olhava com ternura. Entendi que eu não tinha culpa. Seu pai me absolveu e eu acordei mais leve.

sábado, fevereiro 11, 2006

Cegueira

Ele não viu meus olhos se abrindo no meio da madrugada só para admirá-lo
Ele não viu meus olhos sorrirem sempre que de sua boca saiam as raras palavras de carinho
Ele não viu meus olhos dizendo “eu te amo” a cada amanhecer ao seu lado
Ele não viu meus olhos felizes sempre que ele surgia
Ele não viu meus olhos mareados quando magoou
Ele não verá meus olhos apagados

Burrice

Ele não entendeu porque meus olhos sempre o observavam de longe
Ele não entendeu porque meus olhos nunca cansavam de fitá-lo
Ele não entendeu porque meus olhos se fechavam e davam lugar aos melhores sorrisos
Ele nunca entendeu porque meus olhos sempre estavam atentos aos seus movimentos
Ele não entendeu porque havia medo em meus olhos
Ele nunca entenderá porque meus olhos perderam o brilho

domingo, janeiro 29, 2006

Sobre o exílio

Tudo aconteceu rápido. Quando despertou já não estava no mesmo lugar de antes. Estava escuro. Cercada de paredes úmidas e sombrias não conseguia compreender o ocorrido. Ainda trajava as roupas de festa e sua última lembrança era de uma bela comemoração, muitos sorrisos, alegria. Mas, ao despertar acuada em um beco, ouvia apenas ruídos ao longe. Eram pessoas, um vozerio incompreensível. Atordoada, levantou-se e caminhou em direção as estranhas vozes. Deparou-se com rostos estranhos e, tendo sua presença percebia, foi olhada com pesar. Rapidamente compreendeu: fora banida de sua felicidade.

Os dias no exílio são lentos, sempre descoloridos, desprovidos de sensações extremas. Passam pesados como toras de madeira carregadas sobre os ombros. A saudade é a única companheira leal, é ela quem não permite que tudo suma da lembrança. Preserva os cheiros, os gostos, os sentidos. Faz tudo doer, mas ainda assim é bem vinda. Em meio ao vazio dos dias torpes, a dor vira dádiva.

Tempo é de fato um santo remédio. Ele transforma, encaixa, acolhe, compreende. A medida que passa muda as coisas ao seu redor. Mas, para saber de verdade o preço de um exílio, é preciso voltar.

Aos poucos foi dando conta dos tantos anos que passara fora. Ao ver as provas de sua ausência, os momentos mágicos que perdera. Foram muitos os sorrisos, as alegrias, as comemorações. O tempo, cruel e implacável, não parou. Passou rápido permitindo que aquele tanto de vida lhe fosse roubado. Olhando tudo aquilo se sente vazia, traída, lesada. A dor, dádiva de outrora, agora apenas fere.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Muito mais que nove dias

Todo mundo tem traumas e fobias estranhas. Estudei com um menino que desmaiava com o cheiro de queijo, minha mãe não entra no mar se tiver ondas (mesmo que sejam meras marolas), minha vizinha acha que todos os cães do mundo a odeiam.

Eu passei alguns anos com medo do nono dia, dos sonhos que acabam em nove dias, das coisas boas que se esvaem em menos de duas semanas. Tanto que, no décimo dia ainda não respirava aliviada e no décimo sétimo tive uma séria recaída. Pensei que o fim estava próximo outra vez.

Alarme falso!

Hoje, chego ao dia de número vinte e três leve. Venci meu trauma e me sinto limpa, feliz, relaxada, segura e tranqüila. Perdi o medo. Agora sei que, quando o inevitável fim chegar, terei muito mais que nove míseros dias para contar.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Realizou!

Há tempos tenho um sonho recorrente. Chegar em casa e ver o carro (ou o próprio, a pé mesmo) de alguém especial na porta da minha casa. Isso acontece há tantos anos que a porta minha casa já mudou umas três vezes, o tal “alguém especial” então... umas 30 vezes.

O divertido é que, numa noite chuvosa de sábado, dobrava lentamente a esquina da minha rua e avistei o carro dele. A cena teve ar corriqueiro, eu já sabia que ele apareceria naquele dia e por aquelas horas, tanto que só fui notar que meu pequeno sonho recorrente se realizou uns dois dias depois do fato ocorrido!

Tem gente que passa a vida esperando algo e quando acontece nem repara. Povinho sem atenção esse!

domingo, dezembro 11, 2005

Das piadas que a vida conta

Sabe quando você assina o atestado de óbito de uma coisa, mas ela resolve dar um súbito suspiro? Fechou o caixão, chorou as últimas lágrimas, bebeu o morto e já até se acostuma com a idéia de que tudo se esvaiu, findou-se afinal.

Eis que, numa manhã chuvosa de domingo, socos e chutes são ouvidos. Eles vêm de dentro do caixão onde o suporto cadáver se contorce. Tsci, imaginação! É só a boa e velha saudade lhe pregando mais uma peça.

A tarde cai e os barulhos ainda podem ser ouvidos, mais fortes e insistentes agora. Tanto que não tardam em romper a madeira e, sem muito alarde, diga-se de passagem, espalhar toda a terra que havia sobre ele ao seu redor. Seus olhos ainda não acreditam no que vêem, seus ouvidos no que ouvem e, incrédulo, você está lá, só olhando. Até que ela avance sobre você e pronuncie TODAS as palavras. As mais mágicas, aquelas que despertam e comprovam que a coisa realmente voltou, que é real e que está ali bem na sua frente, respirando e sorrindo para você, só para você.

terça-feira, dezembro 06, 2005

A canção número 21 de Nick

Danny é uma criança autista e, como tal, tem dificuldades para se comunicar. Seu desenvolvimento é lento, quase imperceptível. Porém, sua relação com a música é tão intensa que fez com que ele criasse uma palavra para designa-la. Goggo, é assim que Danny diz música. Algo tão especial que, mesmo sem conseguir compreeder e apreender as coisas do nosso mundo, o fez criar um jeito de dizê-la para nós. Do mesmo jeito que fez com salgadinhos, natação e biscoito, suas outras grandes paixões. “Um garotinho que não fala, se põe de cabeça baixa diante de um alto falante fazendo o máximo para absorver cada nota (e quem sabe cada palavra?) da canção”.

Olho para o lado e quase não consigo distinguir a imagem da árvore de Natal que enfeita a Lagoa. Tento disfarçar e enxugar as lágrimas sem que a pequena população que viaja no 460 (sim, é preciso apenas um coletivo para povoar uma pequena cidade) perceba.

domingo, dezembro 04, 2005

Você pinta como eu pinto?

Nada como cerca de 20m² de paredes brancas para colorir.
Nada como deixa-las totalmente laranja.
Nada como fazer isso com música tocando.
Nada como ter mais duas mãos queridas para ajudar.
Nada como saber que isso tudo foi só um começo:-)

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Evangelho no almoço

Herodes se arrastava pelos corredores do palácio enquanto urrava de dor. Suas carnes fétidas, envoltas em panos banhados em essências, doíam o tempo todo. Ele, como se não fosse pouco a dor do corpo, ainda era atormentado por seus próprios fantasmas. Os espíritos de todos aqueles que tirou a vida em nome da desconfiança agora o assombram. E, nem mesmo quando adormece vencido pelo cansaço, o descanso é seu destino. Seus sonhos também são perturbados por mensageiros do além, que alimentam ainda mais sua loucura.

Daí o atendente surge com um enorme prato oval. Dentro um dos maiores hambúrgeres de que se tem notícia pelas banda do Leblon. Batatas fritas, molho de mostarda e um belo copo de milk shake. Sim, devoro tudo em tempo recorde enquanto penso em Herodes. Ah, não, nem mesmo seu sofrimento foi capaz de me tirar o apetite. A grande prova veio depois. Um belo rocambole de chocolate com doce de leite, sorvete de creme e uma incrível calda de chocolate quente. U-hu!

Ler Saramago no Joe & Leo’s tem dessas coisas:-)

terça-feira, novembro 29, 2005

Resultados?

Trinta dias mergulhada em folhas de alface de todas as nacionalidades, azeite de oliva, soja, linhaça, Becel pro-active, Ades, peixe cozido, arroz integral e 4,5kg se vão de meu pequeno corpo.

Ta legal, o tal colesterol baixou para consideráveis 215, mas e daí? Minhas calças estão caindo. Minha bunda que era pouca se acabou!

O martírio vai continuar. A meta é chegar aos 120. Imagina só, vou parecer uma anorexia.

segunda-feira, novembro 28, 2005

A criatividade como salvação

Crises constantes de falta de ar. O marasmo sufoca!
Fazer coisas iguais dia após dia, durante muitos dias, é o mesmo que morrer lentamente.

Os efeitos colaterais saltam aos olhos. Os movimentos ficam lentos, o sono se torna mais forte que qualquer outra coisa. A vontade de dormir é sempre soberana e a preguiça vira o pecado da moda.

O que fazer para o ar voltar?

Aceite o convite/desafio de uma amiga e decore o albergue dela. Pinte os móveis, pendure discos velhos com purpurina e CDs nas paredes. E deixe seu toque pessoal com suas melhores fotos em um tipo de exposição permanente. Crie, invente, dê muitas idéias. Quanto mais elas saírem de sua boca, mas ar entrará em seus pulmões e menos sono você terá.

segunda-feira, novembro 07, 2005

The revivel day

No revivel day você acorda para trabalhar com saudades da escola. Tropeça no seu grande amor da adolescência dentro do coletivo, assiste a banda que você amava quando tinha 14 anos (ou o que restou dela) na TV e termina a noite rindo muito com sua amiga, que você conhece desde os 16 anos, dos meninos que não davam a mínima para vocês na escola e agora babam quando vocês passam.

Nota do editor:
Diazinho estranho!

sexta-feira, outubro 28, 2005

Ápice da tristeza

Ir ao Joe & Leo's com os amigos e comer um hamburger de arroz!

Isso não é vida!!

terça-feira, outubro 11, 2005

Dieta xiita

Da noite para o dia tudo que você mais gosta de comer vira um veneno. Chocolate, leite, yogurte, manteiga, pizza, pão, Nescau, toddynho, crepe, sorvete...

Burlar a regras? Nem pensar. Qualquer traço de gordura que passar por minha delicada boquinha em direção ao, agora, meu limpíssimo organismo causará um tremendo revertério. Vcs não têm noção do quanto é explosiva a combinação do Crestor (remédio para colesterol) com o leite de soja. Uma merda, literalmente!

Como alguém pode viver assim e ainda manter o bom humor?

Me deixem sofrer em paz!

domingo, outubro 09, 2005

Difícil digerir

Ainda estou tentando descrever a sensação.
Uma pessoa pequena, relativamente magra, tecnicamente sedentária e com uma alimentação meia bomba. Um belo dia chega o resultado: 440 de colesterol!!

Sentada à frente do médico ouve:
-Em 27 anos de profissão, nunca vi um exame assim.

Na seqüência vem:
-Vou inscrever vc num programa de pacientes crônicos.

Duas falas que entraram para minha história pessoal. Duas daquelas coisas que nos lembramos em momentos limites da vida.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Divagações sobre o casamento

Palavras de uma amiga casada há quatro anos:
"Você casa antes mesmo de qualquer formalidade ou convenção. Você casa quando sai com outra pessoa e pensa nele, quando entra numa loja e acaba comprando uma coisa para ele, quando vê as coisas e sabe que ele adoraria. Quando tudo isso acontece você está casada"

Minhas palavras:
"Agora preciso avisar ao meu marido que ele tem uma esposa"

domingo, agosto 21, 2005

Um querido!

Ele é uma pessoa fofa! Cheio de sorrisos e sempre deixando tudo às claras. Um verdadeiro achado! Mas, é claro que tão especial assim, ele já está ocupado.

Os encontros esporádicos e fugazes sempre foram guardados com carinho. O motivo? A verdade sempre esteve presente. Assim, ele pode até sumir durante anos a fio, mas quando aparece é sempre uma alegria. E quando diz: "- você pode não acreditar, mas eu senti saudades", é capaz de fazer o chão tremer sob seus pés!

domingo, agosto 14, 2005

Os opostos se repelem!

De tão diferente ele me fez ouvi-lo, afinal, o poder da argumentação era ponto em comum. Mas no fundo sabia q era uma insistência tola. Deixei q me levasse até seu distante mundo, mostrasse suas paisagens, explicasse suas teorias, contasse sua história. Confesso que foi agradável. Mas, não nasci para viver em perigo constante!

Pessoas diferentes significam trabalho extra. Trabalho extra causa estress. O estres aumenta as batidas do coração e aumenta meu colesterol, sem falar nas variações no tom de voz (para cima, é claro) e no humor (para baixo, é evidente!), na queda de cabelo e nas manchas na pele. Pronto! Fiquei feia, chata e doente.

Virei outra pessoa!

sexta-feira, agosto 12, 2005

É assim...

Se estamos bem perto, ele nunca faz nada.
Se eu o toco, ele fica parado.
Se faço um carinho, ele congela.
Quando o olho de longe, ele sorri.
Quando olho de perto, ele desvia o olhar.
Se digo obrigado pessoalmente, ele diz que eu já disse por email.
Quando digo que o amo ele responde: "- Tá."

Mas chamo pro braço o primeiro que disser que não existe paixão nessa relação!

quarta-feira, agosto 03, 2005

Depois da estrada

Vinte dias viajando sozinha e concluo que sou assim mesmo e pronto!
Eu não bebo, não falo com qualquer um, não gosto de bagunça e sou tímida. Sou seletiva, silenciosa, inteligente, tranqüila, observadora, preguiçosa, segura e muito (mas muito mesmo!) corajosa. Mas nada disso funciona em tempo integral.